terça-feira, 27 de outubro de 2015

27.10.2015 - Gardênia

Na última visita que fiz a minha avó prometi a ela que lhe levaria flores. Minha avó sempre teve um jardim florido, creio que minha paixão pela natureza veio dela, amo o cuidado que ela tinha, o conhecimento que veio das experiências e não da teoria. Parecia ser dona de um toque mágico com as plantas, bastava ela mexer no canteiro ou arrancar as folhinhas amareladas que as plantinhas sentiam seu carinho e depois nos presenteavam mostrando toda a sua beleza, que até então estava escondida. Desde o começo do ano, quando minha avó sofreu três AVC's e em sequela perdeu seus movimentos e a fala, eu venho evitado falar sobre como isso tem me afetado. Acontece que nos últimos tempos é que havíamos nos aproximado, eu que a acompanhava ao banco, eu que insistia pra ela fosse na floricultura comigo, ela que me contava as fofocas, era o abraço dela o mais apertado e sincero, juntas enfrentávamos o pânico do elevador e as portas giratórias que tanto detestamos. Eu aprendi a lhe dar com seu jeito rabugento, aprendi a seguir seu ritmo e ela deixava eu a acompanhar a segurando pelo braço, coisa que vinda das demais pessoas a incomodava e até ofendia. Eu amava sua risada e humor naturalmente sarcástico. Moramos em bairros próximos e até então eu só a visitava nos típicos domingos, agora porém não via problemas em dar uma passadinha por lá na semana. Ai veio o AVC e pumba! Foram as visitas no hospital, as noites que fiquei de acompanhante, e inclusive um dos dias mais difíceis pra mim foi a última noite que estivemos no hospital, ver sua cara de dor e estar de mãos atadas... precisei ser muito forte pra conter as lágrimas e transmitir uma força que eu já não tinha. Depois veio a alta, mas ela voltou pra casa naquele estado que me faz descrevê-la no passado mesmo ela ainda estando presente, e isso me mata por dentro. Desde então eu resolvi que não a trataria diferente do que eu costumava ser. Chego lá com uma animação que deve até ser irritante. Converso, faço piadas, faço carinho, dou um abraço desengonçado de acordo com o que a posição dela permite. Mas não achava isso o suficiente. Eu nem sei o quão difícil é estar numa situação assim. Por isso cresce em mim uma necessidade de levar até ela algo de novo. Prometi então que lhe presentearia com flores. Como eu costumava fazer antes. Nada de buquês, falo de flor com terra, no vaso mesmo, pra ser cultivada. Pra alguns era bobagem, já que ela não mais poderia prestigiar algo assim dadas as suas condições e não faria sentido. Mas pra mim faz. De que adianta adornar de flores uma sepultura? Pra mim mais vale dar flores a quem está vivo. E ainda mais pra ela que sempre as amou. Queria então algo especial. Minha mãe sempre insistia perguntando se ela tinha alguma preferência. Num belo dia ela em poucas palavras sussurrou a resposta: "qualquer uma" e fiquei abismada, a conheço bem e sei que tipicamente ela iria dizer o mesmo se estivesse em seu estado normal, dificilmente era específica, seus "tanto faz" eram quase uma marca registrada. Daí que eu suspeitava já que as Azaleias eram o que possivelmente mais a agradaria. Azaleias BRANCAS, que ela ainda não tinha. Procurei, procurei e procurei e nada. Eu não queria voltar a vê-la sem ter em mãos o prometido, e não ia aparecer com qualquer coisa. Tinha que ser algo especial. Foi então que me veio uma nova ideia. Não bastaria que ela visse a beleza da flor, mais interessante seria ela poder sentir algum aroma, coisa que ela não deveria sentir desde antes de tudo isso ocorrer. Achei que ela merecia passar por isso, de sentir cheiro de flor, não só tocar ou ver. Foi então que hoje resolvemos procurar numa floricultura que frequentávamos com ela, lá achamos as Azaleias brancas, eram miúdas, não supriam minha expectativa e azaleias não tem cheiro. Foi quando olhei ao lado e vi um vaso com belas flores brancas e de onde vinha um aroma doce e suave, gostoso, que eu nunca havia sentido. Fui então apresentada as Gardênias. De uma delicadeza encantadora, elas me conquistaram e sim isso foi a prova de que amor a primeira vista existe rsrs. Lá estavam as flores perfeitas, nota 10 em beleza e fragrância. A vendedora simpática lembrou da minha avó e fez o enfeite do vaso de graça, como presente. Depois foi a hora de entregar as flores. Levei pra ela, coloquei a vista, coloquei as mãozinhas dela pra sentir a plantinha e finalmente aproximei as flores dela para que sentisse o cheiro. A principio não notei nenhuma reação. Mas depois sei que consegui agradar, ela não tirava os olhos da flor quando enfim a coloquei sobre a comoda cuidadosamente pra que ficasse a vista. Aproveitei e contei a ela todas as novidades, bem sei que ela adorava quando compartilhavam coisas assim, foi muito gostoso. Também trouxe Gardênias pra minha casa, acho linda a forma como elas envelhecem, seu branco pálido vai amarelando de forma graciosa, são lindas do começo ao fim e já entram pra minha lista de flores preferidas.   

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